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[07] NotaSérie: Lantz

As duas caras do gigante

Texto de Pedro Novo

Tenho duas imagens do mesmo gigante.

Uma é de 1964. A outra tirei-a eu, em Lantz, em 2023.

Separam-nas quase sessenta anos. E a cara não é a mesma.

O gigante chama-se Miel Otxin. Sai todos os anos no carnaval de Lantz, uma aldeia do norte de Navarra, na estrada antiga de Pamplona para França. Na terça-feira à tarde é julgado, morto a tiro e queimado no frontão.

Em fevereiro de 1964, o historiador Julio Caro Baroja e o irmão, o cineasta Pío, foram a Lantz filmá-lo.

Nas imagens desse filme, o gigante veste uma camisa aos quadrados azuis e brancos. Tem um lenço vermelho ao pescoço e uma faixa vermelha à cintura. A cabeça é de feno, com uma careta de nariz grande. Por cima, um chapéu em cone, coberto de papéis de cores.

Caro Baroja descreveu-o assim, no artigo que publicou no ano seguinte: um gorro em cucurucho "adornado com papéis de cores" e, na cintura, "uma faixa colorada". Às vezes, de uma ponta à outra dos braços, levava uma tira de pano com um letreiro: "Vivam os rapazes de Lanz".

Vinte anos antes, José María Iribarren tinha falado de uma careta de cartão.

Em 2023, o gigante que fotografei tem outra cara.

Já não é de feno. É uma cara pintada, de olhos azuis, sobrancelhas escuras e suíças. Tem um bigode fino, uma pêra de pelo verdadeiro e um sinal na face.

A camisa é de tecido às flores, rosas e hortênsias. Na cabeça, em vez do cone de papéis, um boné escuro coberto de tiras e flores de pano de todas as cores. Nas mãos, luvas com punhos de pelo.

Há coisas que não mudaram.

A faixa vermelha. As calças azuis. Os braços abertos, em cruz. E vai sempre por cima das cabeças, a dançar pela rua. Em 1944, segundo Iribarren, levava-o aos ombros o rapaz mais forte da aldeia.

À volta dele, as máscaras também se parecem. Em 1964 havia rapazes com a cara tapada por renda de mulher. Em 2023 também.

Não sei quando o gigante mudou de cara.

Não sei quem lhe pintou a nova, nem se foi de uma vez ou aos poucos. Não encontrei isso escrito em lado nenhum.

É uma das perguntas que levo para Lantz no próximo carnaval.

Pode parecer um pormenor. Não é.

Gosta-se de dizer destas festas que são antigas, que se repetem iguais há séculos. O gigante de Lantz desmente-o à vista. Em sessenta anos mudou de cara, de roupa e de chapéu, e continua a ser o mesmo gigante para a aldeia que o queima.

As tradições não se conservam. Refazem-se. Todos os anos alguém tem de construir o gigante outra vez, com as mãos e com o que tem.

Esta nota faz parte da investigação para O Contador de Histórias, um livro em escrita sobre o carnaval de Lantz.

Fontes

  • Imagens de 1964: excertos do filme dos irmãos Caro Baroja publicados no YouTube pelo canal Desolvidar como "Carnaval de Lanz 1970. Caro Baroja", 1.ª e 2.ª partes (montagem de Patxi Mendiburu, 2011). A data das imagens segue Caro Baroja, que situa a rodagem entre 8 e 11 de fevereiro de 1964.
  • Julio Caro Baroja, "Folklore experimental: el carnaval de Lanz (1964)", Príncipe de Viana, n.º 98-99 (1965), pp. 10 e 13.
  • José María Iribarren (1944), citado por Julio Caro Baroja, El carnaval (Madrid, Taurus, 1965), p. 196: a careta de cartão, as calças azuis, o rapaz mais forte que o leva.
  • O julgamento, os tiros e a fogueira no frontão: Caro Baroja (1965), pp. 17-18.
  • Fotografia do autor, Lantz, carnaval de 2023.

Palavras-chave: Lantz · Lanz · Miel Otxin · carnaval de Lantz · Navarra · Caro Baroja · gigante de palha · carnaval rural · etnografia